| 7/09/2008 - MISSÃO | |
| http://www.abcdmaior.com.br/noticia_exibir.php?noticia=8663 | A RESPOSTA DE MARCELO |
| Por: Carlos Carolino |
Ele vive hoje de forma modesta e usa seu tempo para levar adiante uma espécie de missão Marcelo Gil, 39 anos, é um vendedor nato. Em lojas de roupas como a Print Rip e TNG dos shoppings Iguatemi e Morumbi, em São Paulo, esteve sempre entre os que mais faturavam. Foi assim, também, na área de informática onde também atuou por vários anos. O ponto alto aconteceu em uma Comdex, uma das maiores feiras do setor, quando atendeu um visitante ilustre no estande da AT&T: Abílio Diniz. O dono do Grupo Pão de Açúcar ficou tão impressionado com sua demonstração que mandou contratá-lo como vendedor de produtos de informática na rede Extra. Marcelo poderia ter prosseguido na carreira, juntado um bom pé-de-meia e levar o que muitos chamariam de "uma vida normal". Não foi o que aconteceu. Ele vive hoje de forma modesta, com ajudas que obtém aqui e ali, e usa seu tempo para levar adiante uma espécie de missão. É difícil dizer exatamente o que levou a uma mudança desse tamanho em sua vida, mas as pistas estão bem visíveis pelo caminho. A religião sempre esteve presente na vida de Marcelo. Ao longo de sua adolescência ele integrou uma série de movimentos ligados à Igreja Católica. Já adulto, e depois de ter iniciado, sem concluir, as faculdades de Letras, Direito e Psicologia, se formou em Teologia e Filosofia pelo Instituto de Teologia da Diocese de Santo André. São Francisco de Assis se transformou, para ele, numa referência. Quando resolveu jogar tudo para o alto, não admira que tenha buscado no santo um modelo a ser, de alguma forma, imitado. Marcelo se descobriu gay aos 15 anos, mas só aos 35 esse fato se tornou de amplo conhecimento público. Em 2004 ele criou a ONG – a ABCDS - Ação Brotar pela Cidadania e Diversidade Sexual - e passou a se dedicar em tempo integral à luta pelo respeito e pelos direitos dos homossexuais. Hoje ele é um dos organizadores da Parada Gay no ABCD, que no último ano atraiu mais de trinta mil participantes. O fato de ser homossexual já motivou uma agressão física contra Marcelo. Foi mais um entre os muitos episódios de violência que acontecem na Região, motivados pela intolerância. Ele desconhece estatísticas, mas cita a existência de grupos organizados que têm atacado homossexuais na região do ABCD. A violência, é claro, não precisa chegar às vias de fato. Piadas, provocações ou simples gestos de rejeição acontecem no dia-a-dia. Difícil? Sem dúvida. Mas ele tem a resposta pronta: "eu vou sobreviver", diz numa inescapável referência à música "I Will survive", espécie de hino de gays, lésbicas e demais integrantes do espectro homo. Marcelo reconhece que há avanços. Em muitos lugares por onde circula o tratamento é cordial e respeitoso. Curiosamente, um dos episódios mais terríveis pelo qual já passou – e que de alguma forma teve um papel importante no rumo que sua vida tomou - não foi, como ele mesmo afirma, motivado por discriminação. Em 1999, voltando para casa, Marcelo foi seqüestrado por dois assaltantes. Foi levado a um caixa automático, depois a um ponto de droga e quando se dirigiam a uma quebrada, ele achou que o pior estava para acontecer. Entrou em luta com os assaltantes, escapou de ser baleado, mas foi atingido por vários golpes com o extintor de incêndio. Os ladrões fugiram. No rosto de Marcelo, ficaram as cicatrizes. No espírito, a dor e a certeza de que a violência, de qualquer tipo e por qualquer motivo, não pode ser aceita com indiferença. |
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